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Depressão não é frescura

A alguns meses (não saberei precisar quantos e, ao ler o texto entenderá os porquês, só sei que foi após 9 de outubro de 2018), percebi que já não tinha vontade de sair de dentro de minha casa, mais precisamente de dentro do meu quarto, só o fazia para ir trabalhar e as vezes para me alimentar, quando não era trazido no quarto por minha esposa. Isso se prolongou por mais de 2 meses até eu assumir que havia um problema, que eu estava como nunca estive antes, sem motivação para fazer nada!

O tempo passou e logo eu falei para minha esposa: “eu acho que estou com uma depressão, não tenho certeza, mas parece que é”, ao que ela me disse: “precisamos procurar um psicólogo, marcar uma consulta logo”. Esta consulta nunca ocorreu, até o momento em que eu escrevia este artigo, os motivos serão detalhados abaixo.

Eu sempre quis ajudar as pessoas, sempre fui dedicado às obras sociais, pois perdi meu pai antes dos meus 6 anos, era pobre e sempre dependemos de ajuda de terceiros nos primeiros meses logo após tal perda. Creio que isso associado ao fato de sofrer muitas humilhações por tal condição social, despertaram em mim um desejo de amenizar isso em outras pessoas, criar condições de superação nas mesmas. Certa feita, uma pessoa que frequentava minha casa, cometeu suicídio o que me fez sentir uma culpa por nunca ter conversado com essa pessoa sobre sua situação emocional enquanto a mesma estava por perto, foi ai que decidi fundar, junto com alguns amigos um grupo de apoio a pessoas com dificuldades emocionais o Vida na Vida. O grupo recebeu várias pessoas em situações caóticas, problemas inimagináveis, maiores do que qualquer um que eu tenha passado um dia. Eu creio que passei a absorver um pouco da dor dessas pessoas, e tentar segurar a barra deles, isso somado ao fato de que eu ajudava minha igreja que não tinha pastor na época e ainda eu estava na academia da Guarda Municipal de Dourados-MS totalmente dependente financeiramente de minha mãe e cunhada, trouxe sobre mim um ápice de estresse, e quando um novo pastor chegou a igreja e assinei a posse na guarda, eu relaxei, e isso desencadeou em uma depressão.

Eu tento explicar onde começou a depressão, e vejo que, com todo este peso nas costas que eu trazia, ao relaxar, eu entrei em um estado de vegetação, perdi a motivação de sair de casa, só queria descansar, só queria dormir, só queria fazer coisas que não me tirassem de dentro do meu quarto, isso incluía não visitar minha mãe que mora a 150mts da minha casa e sequer ir aos cultos que são a 250mts de casa. Passei a morar dentro do meu quarto, fiz dele meu refugio e tentei trazer mulher e filhos para este lugar, instalei a TV no quarto, fazia os filhos assistir e brincar dentro do meu quarto, tudo era aqui.

Algo que me afligia muito nesse período é que, eu sempre achei que depressão fosse meio que uma frescura, uma fraqueza, coisa de gente  dessa geração que nunca brincou na rua como fazíamos antigamente, coisa de gente que nunca tomou banho de rio, nunca matou passarinho de estilingue, nunca jogou bolita (bolinha de gude), enfim, coisa de gente “Nutella”.

Para minha decepção e espanto, percebi que esta maldita doença não faz acepção de pessoas, não filtra por cor, gênero ou qualquer outro aspecto, é uma doença que aflige pessoas, e eu na condição de pessoa, fui atingido e afligido por tal enfermidade sem perceber quando começou, quando percebi simplesmente estava.

O que eu posso dizer sobre estar em depressão é que, eu sentia decepção com alguns amigos que eu considerava próximo e não me visitavam, sentia mal de uma forma absurdamente dolorosa ao ponto de, quando pensava sobre chorava copiosamente, e isso se repetiu por muitas e muitas vezes. No entanto, minha própria mente, parou de tentar pensar nesses amigos, parou de querer as visitas, parou de querer muitas coisas que, antes, eram indispensáveis para mim, vejo que aqui, alcancei o ápice do perigo, andei a beira da tão tênue linha que me separava do querer viver assim e do desistir e, embora em nenhum momento eu tenha cogitado suicídio hoje eu vejo que a possibilidade de querer estava muito próxima de mim.

Esta semana ao receber a notícia sobre o Tenente-Coronel que cometeu suicídio no último dia 1, pensei fortemente sobre contar minha história, e falar sobre o que me ajudou a superar este momento que, sim, poderia ter terminado em tragédia.

Meses atrás recebi a visita do meu Pr. Leandro Azambuja, ele veio perguntar porque eu estava faltoso nos cultos e tal, e eu sequer consegui explicar direito a situação, já comecei a chorar de forma interminável, pois ali, eu vi uma das primeiras pessoas que se preocupou comigo, e como é estranha a sensação, quando se está em depressão, de recebe uma pessoas dizendo que que quer saber porque você está mal e que quer ajudar. Creio que foi a primeira corda que vi no meu abismo, abismo este do qual eu tentei fingir que nem Deus estava comigo, por vergonha, medo e outros motivos que nem sei explicar. Esta corda, me fez após meses ter forças para ir na igreja naquela semana, porém, nas semanas seguintes, tudo voltou como antes, o que me fez sentir que meu abismo era impossível de sair, e entendo que é aqui que as pessoas passam a cogitar a desistência de viver, na realidade, eu nunca quis morrer mas não via sentido em permanecer vivo, porém, sabia que não podia nem deveria sequer, cogitar o suicídio.

Algumas semanas depois o Pr. Leandro retornou a minha casa e conversamos novamente, ele passou a orar todos os dias comigo e a mandar mensagens perguntando como eu estava, isso me ajudou um pouco, disparou um gatilho de esperança. Eu passei a frequentar os cultos novamente (neste interim já se passaram mais de 4 meses), e sentir que dava pra sair dessa depressão, já não se sentia mal ao pensar em amigos, mesmo os que não me visitavam, ligavam, enfim. Certa feita me abri numa reunião de oração e o pastor pediu que todos me abraçassem, isso me fez sentir acolhido, depois de meses sem se sentir assim, mesmo com esposa ao lado, filhos, não era a mesma coisa, o sentimento era diferente, o prazer foi outro.

Hoje, eu estou curado, e aprendi muitas coisas com este período tenebroso, aprendi que um abraço no momento certo, dinheiro nenhum no mundo pode pagar, aprendi que depressão é uma doença perigosa e que a dor da alma é infinitamente maior que a dor física, talvez por isso as pessoas se flagelam tentando desviar o foco de tal dor.

Se este texto busca um propósito é o de tentar fazer você refletir sobre as pessoas que estão ao seu redor, abrace-as mesmo que não pareçam doentes, converse com elas abertamente, pergunte sobre problemas familiares, visite-as, na visita a pessoa se abre, era o único momento eu que eu não conseguia esconder minha depressão, quando era visitado. Um abraço pode salvar uma vida, uma visita pode salvar uma vida, uma conversa pode salvar uma vida. Talvez aquela primeira visita do Pr. Leandro tenha sido o início da salvação da minha vida.

Passei dificuldades no passado, financeiras, emocionais, fui humilhado e mesmo assim, jamais tinha sofrido tanto como sofri nos meses em depressão.

Depressão não é frescura!

Wellington Luiz B. Ostemberg (Guarda Municipal em Dourados-MS)
Obs: Este artigo representa a opinião do autor e não da instituição

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